Nossa terra também possui riquezas literárias! Aí vai mais um conto do nosso querido Franklin Cascaes. Divirtam-se!
Sempre foi crença do povo hospitaleiro desta ilha dos famosos bois-de-mamão que, na sexta-feira santa, não se deve tomar instrumentos de trabalho para usá-los, seja para qual finalidade for. É também de costume tradicional dos descendentes dos colonos açorianos, na sexta-feira santa, a partir de zero hora, banharem-se nas ondas do mar, levando consigo animais domésticos para se purificarem e protegerem de todos os males do corpo físico e espiritual.
As águas colhidas nessa hora servem para todo tipo de cura.
É a fé de tempos longínquos, aliada à superstição, ao medo e ao amor pela conservação do corpo físico, na cura dos males que atacam o homem, em franca vivência espiritual e física com o seu Deus.
As forças atuantes de práticas religiosas freiam os instintos animalescos do homem, encaminhando-o espiritualmente, para viver com bons modos junto com Deus, com a cultura, na sociedade, e consequentemente com o seu próximo.
Entretanto, sempre aparecem, nos meandros desses cenários fantásticos e de cenários moderados, pessoas que se arrojam contra os poderes divinos, maltratando esses conjuntos de sociedades freadoras, veículos insubstituíveis de abrandamento dos sofrimentos que martirizam e açoitam a criatura humana.
Um caso de desrespeito espiritual aconteceu há muitos anos passados, lá pras bandas do sul da Ilha de Santa Catarina. A Maria Vivinha, moradora da Praia de Naufragados, fez uma aposta com a Carriça, de que, na sexta-feira santa daquele ano, ela tomaria uma vassoura e, com a mesma, varreria o quintal de sua casa e, certeza tinha, nada lhe aconteceria de extraordinário. Apostaram um par de tamancos contra um botina. E firmaram a promessa, casando-a.
Na sexta-feira santa daquele ano, de manhã cedo, ela chamou a Carriça, apanhou uma vassoura e foi varrer o quintal pra mode mostrar a sua coragem contra o poder da fé guardada por seus ancestrais e também para cumprir a promessa da aposta.
Quando a Vivina deu a primeira varridela, a vassoura soltou-se de suas mãos como um relâmpago, metamorfoseou-se em bruxa, ganhou altura sobre o morro do Ribeirão da Ilha e desapareceu, num repente, no espaço sideral das alturas incomensuráveis da quiméria.
A Maria Vivina caiu de joelhos no terreiro, rezou, pediu perdão aos céus pelo ato impensado que havia cometido contra as ordens divinas e chorou copiosamente. A Carriça abraçou-se com ela e ambas choraram e sentiram o amargo do néctar da desobediência humana.
CASCAES, Franklin. O Fantástico na Ilha de Santa Catarina. Florianópolis: EDUFSC, 1992.

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